“problemas” parte II

Agora a sério, um verdadeiro problema é quando finalmente acabas de fazer a sopa (que tanto te estava a aborrecer fazer), trituras aquilo com aquela sensação de que fizeste sopa que dá para o resto da vida, divides meticulosamente por taperuéres e acabas de contar que tens 16 caixas para enfiar no congelador ainda com esperança de que aquilo dure no mínimo 3 meses e depois de umas rápidas contas de cabeça te apercebes de aquilo dura na melhor das hipóteses uma semana.

“problemas”

Há dias em que me sinto fora de mim. A flutuar.

Hoje é um desses dias. Hoje a preocupação não é a roupa por lavar, a roupa por estender ou o chão por aspirar.

Hoje é um conjunto de coisas. Coisas aborrecidas. E eu flutuo.

Quando tudo lá fora parece  mais difícil, mais eu me foco em mim, na minha vida, na minha família. Quando tudo lá fora parece escuro e assustador, cá dentro continua tudo igual, colorido e quente…  Quanto menos quero pensar nas “coisas” melhor me apercebo do quanto tudo é maravilhoso.

Quanto mais me apetece gritar mais calada fico e assim, oiço melhor.

É por isso que nos deparamos com os “problemas”.  Para parar.

Nem sempre vai ser fácil, mas será sempre bonito. Quando vivemos de alma e coração só podemos esperar que amanhã tudo será melhor. E se não for. Será sempre suficiente.

Os abraços, o colo que dou, o beijo que recebo, os olhares que dizem tudo.

E assim foi o dia de hoje, mesmo a flutuar, foi um dia lindo e aproveitei cada momento.

O meu filho um dia disse-me que gostava desta música https://www.youtube.com/watch?v=LHCob76kigA e agora estou sempre a ouvi-la.

 

Ninguém dá nada a ninguém. Nem descontos, nem faturas, nem o que se aprende no youtube.

Hoje, estava eu a fazer um embrulho (não interessa de quê) quando me bateram à porta (só Deus e eu sabemos o quanto eu aprecio que me batam à porta). Era um gajo qualquer, que me queria dar um desconto qualquer, numa merda qualquer de uma tal fatura qualquer da luz. A minha fatura. Mas quem é que ele julga que é? Oh amigo, mas queres pagar?! Ninguém vê a minha fatura. Ainda por cima a da luz.

Eu nem ouvi bem o que ele estava a dizer. – Só segundos mais tarde é que liguei as palavras que aquele ser lançou com o ar de quem me estava a oferecer a última coca-cola do deserto – Ele ainda estava a falar e eu intervi apressadamente – “Eu não quero. Eu não preciso. Não me faça perder tempo, nem perca o seu porque eu não quero (eu estava ocupada: a fazer o embrulho)”.

-“Mas é um desconto”. (clama ele)

-“Eu sei. Eu percebi (acabara de perceber nesse instante). Mas não quero. (respondo eu)

-“Não é uma questão de querer!” (ai não?) “É uma situação com o seu número de ponto de entrega que vamos verificar se lhe dá o DIREITO de ter ou não o desconto” (pode não ter sido bem isto que ele disse, mas ele no fundo queria era ver quanto é que eu pagava!)

Eu estava a ficar sem armas e só queria ir fazer o embrulho. Eu estava a meio de ver um filme no youtube a ensinar a fazer um laço e rematei – “Mas o senhor é da EDP?”

– Ah não sei quê (não ouvi bem) “uma parceria”

– “Mas eu não quero. Eu não tenho tempo. Já lhe disse que não tenho tempo. E não quero descontos nenhuns. Muito menos mostro a fatura (ele não ia pagar mesmo)”

– “E se eu vier mais tarde?” pergunta ele

– “Eu não vou querer. E provavelmente não irei ter tempo. E não quero! Não quero desconto nenhum.”

-“Ok. Muito obrigada pela sua disponibilidade.”

E no fim ainda pergunta se “aquela porta” faz ligação ao outro prédio.

Só pode estar a gozar. Primeiro, faz-me perder tempo que eu tinha destinado ao embrulho. Segundo, ainda acha que a minha marquise são as escadas para o paraíso. Muito enganado, desce e sobe outra vez 3 andares que se lixa.

-“Não. Não! O prédio acaba aqui.” Com uma ligeira insinuação de que quem tinha “ganho” era eu!

Fecho a porta. Volto ao embrulho. Que naquele momento era mesmo a coisa mais importante da minha vida.

O laço ficou lindo. A sogrinha elogiou. E eu fiz uma cara de quem diz “é a coisa mais fácil do mundo” e respondi ao elogio como se alguém me tivesse perguntado alguma coisa “ah, até é fácil. É só agrafar aqui, colar ali” parecia eu uma engenheira de laços feitos. Não lhe contei que aprendi com uma youtuber.

E continuo a não querer o desconto. Também tenho direitos.

Nota da autora: Amanhã (igual a nunca mais) corrijo os erros ortográficos.

D

O dia sozinha em casa não foi nada de especial. Morri de saudades de ter alguém para me desculpar. Não arrumei isto porque a não sei quantas não me deu um minuto, não fiz aquilo porque o outro precisou de não sei o que. E não tinha ninguém a espreitar aquilo que eu não estava a fazer. Ouvi Adele um dia inteiro em modo repeat. E sim. Consegui dar um jeitinho às coisas. Mas passadas umas horas já não se notava nada. Mas eu tirei foto para comprovar caso fosse necessário.

Eu tenho tanta sorte. Mas tanta. Tanta. Tenho dois filhos perfeitos, cada um à sua maneira. São tão únicos e especiais. Tenho o melhor marido do mundo. Eu costumava dizer isso a toda a gente. Mas comecei a aperceber—me que a maioria das pessoas não conseguia alcançar. Sei lá. Se calhar fomos mesmo feitos um para o outro. “Agradeço” desde já aos paizinhos dele o pequenito atraso. Agora vou ser sempre 2 anos e 9 meses mais velha. Não condiciona. Mas é chato. Se já tive desilusões? Já. Ir ao ikea e ver aquele móvel com o qual eu sempre sonhei e ouvir: “Gooostaas?” Não, não foi um “gostas?” entusiasmado. Foi um “gostas?” como quem diz “que foleiro”. Eu choro sempre no ikea. Sempre. Porque lá nós somos diferentes. E eu não estou habituada. Deve ser do stress. Quando estava grávida, um “onde é que queres mesmo enfiar essa sapateira?” foi o suficiente para chorar baba e ranho durante 1 hora. Depois passou. A sapateira não veio dessa vez. Mas veio. E ele (como quase sempre) tinha razão. Eu nunca guardo lá os sapatos. Nunca. Outra desilusão é quando ele diz “ah não é preciso passar a loiça por água” e depois fica o filtro da máquina entupido. Mas ele mete a loiça na máquina. Então disso eu nem me posso queixar. Eu nem me posso queixar de nada. Só isso é que me pode eventualmente irritar (mulheres!) e às vezes faço filmes dignos de pelo menos 12 nomeações aos óscares. E só para chamar a atenção e depois digo “eu preciso de espaço”. Nem eu me entendo. Ele dá o espaço todo que eu queira e depois é porque ele anda distante. Hoje eu só quero adormecer encostadinha a ele e ser querida, porque às vezes esqueço—me. Às vezes consigo ser mesmo mazinha e não, ele não merece. Quer dizer… já houve uma situaçaozinha ou outra. Como daquela vez que ele disse “deixa estar eu visto—a” (a bebe) e eu ok… descansadinha da minha vida lá fui eu tratar do que tinha a tratar e quando fui ter com eles (na rua) a bebé estava de pijama. Pois claro que me passei. Demorei uma semana até me esquecer daquilo. Agora não sei, se é porque agora já se distingue melhor o que é um pijama e o que é roupa de rua ou se de facto nunca mais confiei nos dotes de escolha de indumentária do papá e nunca mais sai sem deixar tudo por ordem. 1—body 2—meias 3—roupa interior 4—roupa de sair de casa ali, tudo pronto por camadas conforme a ordem de vestir. É que parece fácil vestir um bebé (é como ir ao ikea) mas não é. Todo o processo que antecede o acto de vestir é um drama. A escolha, a conjugação, o será que vai ter frio, será que vai ter calor, vai ficar confortável, epah! É difícil. E ele até se orienta, ele até é a pessoa mais inteligente que eu conheço. Inteligente e prática.

Uma vez, ele voluntariou—se para passar os lençois a ferro para a bebé levar para a escola. E passou. E minhas amigas a partir desse dia tudo ficou mais fácil. Agora eu quero lá saber se ainda tem um vinco. Eu até já faço batota. Dobro ao meio e começo a partir dai. Azar. Também não estou a concorrer a nenhuma medalha de ouro. Nem ninguém me vai dizer “boa mamã, os lençois estavam maravilhosamente bem passados a ferro”! Estão passados mal ou bem, não interessa nada. É sempre o que deixo para o fim. A última coisa. É aquele gesto oficial que anuncia o início de uma nova semana. 

Ao domingo é também o dia de cortar as unhas da miúda. As das maõs. Porque as dos pés eu já desisti. Sinceramente eu acredito que ela ha—de atingir uma idade e maturidade em que compreenda que é de facto algo necessário. Sei lá, eventualmente isso há—de acontecer.

A noite passada foi dormir com os avós. Há um tempo atrás isso ainda me custava muito. Agora? Estive mesmo para perguntar (assim como quem não quer coisa) se ela não podia ficar lá mais umas noites. Ou uma semana.

Ponto de cruz

​Hoje, a vida das mulheres é muito mais complicada do que no tempo das nossas avós. Ok, não havia máquinas de lavar roupa (whatever…) mas hoje em dia há mais competitividade. No passado eu poderia estar aqui, hipoteticamente, a pensar que queria lá saber se “tava velha” com 50 anos. Íamos estar todas. Era igual. Aos 50 anos éramos todas umas velhotas gordinhas, vestidas de preto e cabelo curto. Não havia a capacidade (necessidade) de sonhar. Aos 50, estaríamos todas na melhor das hipóteses “acabadas”. E era na boa!

Hoje em dia não. Há miúdas de 50 anos que parecem de 20. E isto altera as condições do nosso ecossistema.

Mas eu devo estar velha mesmo. Quando era pequena lembro-me de ver a minha mãe, sempre de casa para o trabalho, trabalho-casa, filhos, marido, casa, casa, trabalho, mais filhos, levar os pais às consultas e epah! Aquele conjunto de situações para mim era sinónimo de terceira idade. E isso, parecia realmente muito longe, quase como se nunca fosse acontecer. Eu nunca iria ser tão “cota”. Eu ia ter sempre amigas, sempre. Eu ia viver com amigas. Eu pensava que ia todas as sextas e sábados à discoteca. Eu nunca ia ser velha. NE-VER.

A nossa cabeça não funciona mesmo nada bem na adolescência. E depois temos ali uma dúzia de anos que ainda andamos distraídas. Não queremos aceitar o óbvio. E a ideia de que te vai aparecer a primeira ruga, para ti é ainda um horizonte longínquo. Mas um dia acordas e já está. A vida começou a correr. Um mês já não parecem 3 anos da tua vida. Pelo contrário, passam 3 anos num mês. E é possível sentir cada dia.

Não é a idade que magoa. É não termos realmente percebido mais cedo que o tempo ia voar. Não são permitidos atrasos. E mesmo depois de perceber isto eu continuo a pensar “logo vou” ou “logo faço” amanhã. É sempre para amanhã. Por enquanto.

Fico chateada só por um motivo. Eu já me apetecia estar aqui a pensar “quando tiver tempo vou fazer um quadro em ponto cruz” e em vez disso tenho de andar a arranjar coragem para me ir inscrever no ginásio ou finalmente marcar aquele “jantar de amigas” que serve para dizer a toda a gente “olhem eu ainda saio de casa uma noite por ano yeah” e epah não há pachorra. Eu só quero poder adormecer descansada a ver a novela. Não. Não sou assim tão velha. Mas terei de ser? Qual é a idade então? Para uma uma mulher poder relaxar e “cagar” nessas mariquices com que a sociedade nos sobrecarrega? Não basta ter de trabalhar até aos 66 anos e 3 meses? Tenho que ser jovem também. É, parece que passou a ser obrigatório.

comer orar amar

​​Todas nós temos aquele gostinho por sofrer.

Nós gostamos de ficar naquele quartinho escuro, chamado de melancolia. Gostamos! (Eu cá, acho que o domingo à noite é perfeito para isso “oh meu deus mais 5 dias em que é preciso roupa lavada para todos logo de manhã”.)  Não é preciso nenhum doutoramento em ciências “do início da civilização humana” para saber disso. E está na natureza. Se nós não gostássemos de sofrer não tínhamos filhos (dar à luz oh tão bonito). NUNCA. E estaríamos extintos.

Nós só faríamos amor. Até não restar ninguém.

Por isso podemos afirmar que somos realmente responsáveis pelo desenvolvimento e continuação da espécie. https://www.youtube.com/watch?v=VBmMU_iwe6U

Parece que até percebo realmente disto, mas não. Não tem nenhum fundamento. Aliás, eu só escrevi m*rda.

Eu adoro ter filhos. Depois de mais ou menos 15 dias após o nascimento. Quando já consigo andar. Estar grávida é muito lindo durante o primeiro trimestre e o parto  já não é como na pré história, existe epidural e outros procedimentos que “facilitam”. Mas eu, claro que não tive essa sorte. Não digo que o meu último parto (sim porque isto acontece—me imenso, 2 vezes já é uma verdadeira loucura) foi digno da idade da pedra, mas garanto que foi no mínimo dos tempos medievais.

Dei por mim com estes pensamentos enquanto pensava (é… quase sempre penso em duas coisas ao mesmo tempo e nunca uma tem a ver com a outra) que amanhã vou estar sozinha em casa pela primeira vez em muito tempo. https://www.youtube.com/watch?v=PIb6AZdTr-A

Eu fiquei tão feliz. A sério. E continuei a cantar “That’s aaaaaaall they reeeeeeeally waaant… uuuoooh, uuuuohhh Oh girls just want to have” um diazinho só delas… uooohh

Eu não vou lançar foguetes, para não dar azar. E nenhum deles partir um pé, ou ficar com diarreia e lá se vai TUDO por água abaixo.

Mas já tenho os meus planos.

Depois venho aqui contar como foi o meu dia, de finalmente uma princesa, dona do seu castelo.

Fazer ó-ó

​Eu não sei se já passaste por isto, se estás a passar ou se eventualmente poderás vir a passar um dia. (Contém spoiler)

Quando se tem filhos, há sempre uma questão delicada que permanece na incerteza até à hora da verdade: – A hora de fazer ó-ó.

Ontem aconteceu o que nunca pode acontecer, que é a bebé adormecer no sofá a ver o canal panda e de um instante para o outro (enquanto eu já esfregava as mãos a pensar no que podia fazer descansadinha com o meu tempo livre) ela abrir os olhos e começar a rir à gargalhada (se já parece assustador, continua a ler).

Ela acordou; completamente doida.

Ela ria, ela gritava, ela chorava, ela dançava, eu sei lá.

O pai, ao aperceber-se que a mãe (eu mesma) não estava já com grande paciência, e numa tentativa de a acalmar levou-a para o quartinho dela. Ai, eu fui lá fora fumar um cigarro. Demorei o tempo de fumar uns 7 ou 8.

Voltei e abri a porta na esperança de que o domador já tivesse dominado a fera (ou lançado no mínimo um dardo tranquilizante). Mas não. Lá estava a bebé (é óbvio que não trato assim a minha filha, eu chamo-a pelo nome)  fresca como se tivesse dormido umas 6 horitas. Nesse momento, eu percebi que seria inevitável – a troca de turnos.

A situação já não é por si só nada fácil, mas o paizinho antes de dar de frosques lembrou-se de lhe dar um livro!!!!! Oh meu DEUS! Ele sabe que quando ela se agarra a um livro nunca mais se esquece daquilo. É uma chatice. Eu queria era que ela dormisse. A esperança de que isso acontecesse (rápido) desvaneceu. Eu ainda mandei para o ar um “dói-me a cabeça” como quem diz “vê lá não te demores”. Lá foi o pai. E ficámos nós as duas.

Entretanto veio o filho mais velho (um anjo) que já não mói ninguém. Pelo menos não na hora do “ó-ó”. É bastante pragmático. Beijinhos, boa noite, amo-te muito, bons sonhos. E cada um vai à sua vidinha sem problemas nenhuns. (Só para dar um ponto da gravidade da situação, a bebé diz “bom dia mano” oh meu deus, louvado sejas. Ela pensa que já é de manhã. Eu estou li—xada!!!!)

Esse pensamento aliviou-me um bocadinho. Isto não vai durar para sempre. O ir adormecer. Eles são é muito mal habituados. Eu adormeço sem abanicos e nunca me queixo.

Inocentemente, tento levar o livro para longe do campo de visão dela e pergunto “vamos fazer óó morzinha?” ela (e isto agora é mesmo a sério) abre aqueles olhões que mais pareciam holofotes, faz uma cara que mais parecia aquelas caras dos filmes de terror e começa a repetir com grande frequência a palavra não: “nãaaaaooooo, nãaaaaooooo, nãaaaaooooo, nãaaaaooooo”. Eu tive medo.

Lá se esqueceu ela do livro e foi buscar um brinquedo. Não vou explicar detalhadamente que brinquedo era porque eu precisava de meia vida para o conseguir fazer. E mesmo assim não seria fácil de visualizar. Mas posso afirmar credulamente que começaram a saltar corpos e asas de borboletas e florzinhas às quais ela se referia, com grande entusiamo, como goga (rosa) e gul (azul) por todo o lado. Mais gritos. Muito barulho. Já passava da meia noite. Eu estava a ficar nervosa. Eu sussurrava “por favor filhinha, olha o vizinho, vamos fazer ó-ó”. Eu só queria ir para o sofá, relaxar.

Antes, quando ela ainda não se mexia, isto era mais fácil de resolver. Eu levava-a para a nossa cama e olha, logo se via quem adormecia primeiro. Alguém haveria de ceder e normalmente era eu. Mas agora ela quer comer as minhas bolachas. E eu preciso daquele timing antes de adormecer, a ver (5 minutos de) um filme (e a comer bolachas). E ela não deixa. Ela quer sempre as minhas bolachas.

Bem, já que não os podes vencer, junta—te a eles. Achei melhor aproveitar a situação e brincar um bocado. Ela não ia dormir mesmo.

Seguiram—se lindos momentos a adivinhar onde estava o goga e onde estava o gul. Brincámos com as mãozinhas uma da outra. Rimos. Demos beijinhos.

Ela voltou a lembrar—se do livro. E eu acabei por levar com aquele “corpo de borboleta” que referi à pouco, diretamente nas trombas.

O pai abriu devagarinho a porta e eu adorava poder dizer que ela adormeceu serena nos braços da sua mãe. Mas não.

Quando se lembrou do livro também se lembrou que a cama podia ser trampolim.

E eu (deus me perdoe) disse “mor, a miúda ta maluca”.

Nova troca de turnos. Porque eu fui “fazer cócó” (código secreto que os pais utilizam entre si, que é como quem diz “não estou a aguentar mais, preciso de uns minutos sozinha/o barricado/a”).

Eu fiz tudo o que pude (me lembrar) de fazer. Só para escapar. Lavei os dentes, fiquei a olhar para o aquecedor que acabava de secar as calças para o (filho) mais velho vestir de manhã, com cara de quem pensava que se estivesse ali a olhar para ele com uma expressão (neurótica) ameaçadora, ele acabasse por secar as calças mais rápido. Oh meus deus, é só um aquecedor. Eu não estava bem. Apercebi-me que perdi (ou ganhei) pelo menos 10 minutos na tentativa de intimidar um aquecedor a óleo.

Quando voltei à realidade, lá estava ela. A dormir (tão querida) no colinho do papá. 

E eu fui comer as minhas bolachas.

E sim, comi bolachas depois de lavar os dentes.