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O dia sozinha em casa não foi nada de especial. Morri de saudades de ter alguém para me desculpar. Não arrumei isto porque a não sei quantas não me deu um minuto, não fiz aquilo porque o outro precisou de não sei o que. E não tinha ninguém a espreitar aquilo que eu não estava a fazer. Ouvi Adele um dia inteiro em modo repeat. E sim. Consegui dar um jeitinho às coisas. Mas passadas umas horas já não se notava nada. Mas eu tirei foto para comprovar caso fosse necessário.

Eu tenho tanta sorte. Mas tanta. Tanta. Tenho dois filhos perfeitos, cada um à sua maneira. São tão únicos e especiais. Tenho o melhor marido do mundo. Eu costumava dizer isso a toda a gente. Mas comecei a aperceber—me que a maioria das pessoas não conseguia alcançar. Sei lá. Se calhar fomos mesmo feitos um para o outro. “Agradeço” desde já aos paizinhos dele o pequenito atraso. Agora vou ser sempre 2 anos e 9 meses mais velha. Não condiciona. Mas é chato. Se já tive desilusões? Já. Ir ao ikea e ver aquele móvel com o qual eu sempre sonhei e ouvir: “Gooostaas?” Não, não foi um “gostas?” entusiasmado. Foi um “gostas?” como quem diz “que foleiro”. Eu choro sempre no ikea. Sempre. Porque lá nós somos diferentes. E eu não estou habituada. Deve ser do stress. Quando estava grávida, um “onde é que queres mesmo enfiar essa sapateira?” foi o suficiente para chorar baba e ranho durante 1 hora. Depois passou. A sapateira não veio dessa vez. Mas veio. E ele (como quase sempre) tinha razão. Eu nunca guardo lá os sapatos. Nunca. Outra desilusão é quando ele diz “ah não é preciso passar a loiça por água” e depois fica o filtro da máquina entupido. Mas ele mete a loiça na máquina. Então disso eu nem me posso queixar. Eu nem me posso queixar de nada. Só isso é que me pode eventualmente irritar (mulheres!) e às vezes faço filmes dignos de pelo menos 12 nomeações aos óscares. E só para chamar a atenção e depois digo “eu preciso de espaço”. Nem eu me entendo. Ele dá o espaço todo que eu queira e depois é porque ele anda distante. Hoje eu só quero adormecer encostadinha a ele e ser querida, porque às vezes esqueço—me. Às vezes consigo ser mesmo mazinha e não, ele não merece. Quer dizer… já houve uma situaçaozinha ou outra. Como daquela vez que ele disse “deixa estar eu visto—a” (a bebe) e eu ok… descansadinha da minha vida lá fui eu tratar do que tinha a tratar e quando fui ter com eles (na rua) a bebé estava de pijama. Pois claro que me passei. Demorei uma semana até me esquecer daquilo. Agora não sei, se é porque agora já se distingue melhor o que é um pijama e o que é roupa de rua ou se de facto nunca mais confiei nos dotes de escolha de indumentária do papá e nunca mais sai sem deixar tudo por ordem. 1—body 2—meias 3—roupa interior 4—roupa de sair de casa ali, tudo pronto por camadas conforme a ordem de vestir. É que parece fácil vestir um bebé (é como ir ao ikea) mas não é. Todo o processo que antecede o acto de vestir é um drama. A escolha, a conjugação, o será que vai ter frio, será que vai ter calor, vai ficar confortável, epah! É difícil. E ele até se orienta, ele até é a pessoa mais inteligente que eu conheço. Inteligente e prática.

Uma vez, ele voluntariou—se para passar os lençois a ferro para a bebé levar para a escola. E passou. E minhas amigas a partir desse dia tudo ficou mais fácil. Agora eu quero lá saber se ainda tem um vinco. Eu até já faço batota. Dobro ao meio e começo a partir dai. Azar. Também não estou a concorrer a nenhuma medalha de ouro. Nem ninguém me vai dizer “boa mamã, os lençois estavam maravilhosamente bem passados a ferro”! Estão passados mal ou bem, não interessa nada. É sempre o que deixo para o fim. A última coisa. É aquele gesto oficial que anuncia o início de uma nova semana. 

Ao domingo é também o dia de cortar as unhas da miúda. As das maõs. Porque as dos pés eu já desisti. Sinceramente eu acredito que ela ha—de atingir uma idade e maturidade em que compreenda que é de facto algo necessário. Sei lá, eventualmente isso há—de acontecer.

A noite passada foi dormir com os avós. Há um tempo atrás isso ainda me custava muito. Agora? Estive mesmo para perguntar (assim como quem não quer coisa) se ela não podia ficar lá mais umas noites. Ou uma semana.

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