Ponto de cruz

​Hoje, a vida das mulheres é muito mais complicada do que no tempo das nossas avós. Ok, não havia máquinas de lavar roupa (whatever…) mas hoje em dia há mais competitividade. No passado eu poderia estar aqui, hipoteticamente, a pensar que queria lá saber se “tava velha” com 50 anos. Íamos estar todas. Era igual. Aos 50 anos éramos todas umas velhotas gordinhas, vestidas de preto e cabelo curto. Não havia a capacidade (necessidade) de sonhar. Aos 50, estaríamos todas na melhor das hipóteses “acabadas”. E era na boa!

Hoje em dia não. Há miúdas de 50 anos que parecem de 20. E isto altera as condições do nosso ecossistema.

Mas eu devo estar velha mesmo. Quando era pequena lembro-me de ver a minha mãe, sempre de casa para o trabalho, trabalho-casa, filhos, marido, casa, casa, trabalho, mais filhos, levar os pais às consultas e epah! Aquele conjunto de situações para mim era sinónimo de terceira idade. E isso, parecia realmente muito longe, quase como se nunca fosse acontecer. Eu nunca iria ser tão “cota”. Eu ia ter sempre amigas, sempre. Eu ia viver com amigas. Eu pensava que ia todas as sextas e sábados à discoteca. Eu nunca ia ser velha. NE-VER.

A nossa cabeça não funciona mesmo nada bem na adolescência. E depois temos ali uma dúzia de anos que ainda andamos distraídas. Não queremos aceitar o óbvio. E a ideia de que te vai aparecer a primeira ruga, para ti é ainda um horizonte longínquo. Mas um dia acordas e já está. A vida começou a correr. Um mês já não parecem 3 anos da tua vida. Pelo contrário, passam 3 anos num mês. E é possível sentir cada dia.

Não é a idade que magoa. É não termos realmente percebido mais cedo que o tempo ia voar. Não são permitidos atrasos. E mesmo depois de perceber isto eu continuo a pensar “logo vou” ou “logo faço” amanhã. É sempre para amanhã. Por enquanto.

Fico chateada só por um motivo. Eu já me apetecia estar aqui a pensar “quando tiver tempo vou fazer um quadro em ponto cruz” e em vez disso tenho de andar a arranjar coragem para me ir inscrever no ginásio ou finalmente marcar aquele “jantar de amigas” que serve para dizer a toda a gente “olhem eu ainda saio de casa uma noite por ano yeah” e epah não há pachorra. Eu só quero poder adormecer descansada a ver a novela. Não. Não sou assim tão velha. Mas terei de ser? Qual é a idade então? Para uma uma mulher poder relaxar e “cagar” nessas mariquices com que a sociedade nos sobrecarrega? Não basta ter de trabalhar até aos 66 anos e 3 meses? Tenho que ser jovem também. É, parece que passou a ser obrigatório.

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