Fazer ó-ó

​Eu não sei se já passaste por isto, se estás a passar ou se eventualmente poderás vir a passar um dia. (Contém spoiler)

Quando se tem filhos, há sempre uma questão delicada que permanece na incerteza até à hora da verdade: – A hora de fazer ó-ó.

Ontem aconteceu o que nunca pode acontecer, que é a bebé adormecer no sofá a ver o canal panda e de um instante para o outro (enquanto eu já esfregava as mãos a pensar no que podia fazer descansadinha com o meu tempo livre) ela abrir os olhos e começar a rir à gargalhada (se já parece assustador, continua a ler).

Ela acordou; completamente doida.

Ela ria, ela gritava, ela chorava, ela dançava, eu sei lá.

O pai, ao aperceber-se que a mãe (eu mesma) não estava já com grande paciência, e numa tentativa de a acalmar levou-a para o quartinho dela. Ai, eu fui lá fora fumar um cigarro. Demorei o tempo de fumar uns 7 ou 8.

Voltei e abri a porta na esperança de que o domador já tivesse dominado a fera (ou lançado no mínimo um dardo tranquilizante). Mas não. Lá estava a bebé (é óbvio que não trato assim a minha filha, eu chamo-a pelo nome)  fresca como se tivesse dormido umas 6 horitas. Nesse momento, eu percebi que seria inevitável – a troca de turnos.

A situação já não é por si só nada fácil, mas o paizinho antes de dar de frosques lembrou-se de lhe dar um livro!!!!! Oh meu DEUS! Ele sabe que quando ela se agarra a um livro nunca mais se esquece daquilo. É uma chatice. Eu queria era que ela dormisse. A esperança de que isso acontecesse (rápido) desvaneceu. Eu ainda mandei para o ar um “dói-me a cabeça” como quem diz “vê lá não te demores”. Lá foi o pai. E ficámos nós as duas.

Entretanto veio o filho mais velho (um anjo) que já não mói ninguém. Pelo menos não na hora do “ó-ó”. É bastante pragmático. Beijinhos, boa noite, amo-te muito, bons sonhos. E cada um vai à sua vidinha sem problemas nenhuns. (Só para dar um ponto da gravidade da situação, a bebé diz “bom dia mano” oh meu deus, louvado sejas. Ela pensa que já é de manhã. Eu estou li—xada!!!!)

Esse pensamento aliviou-me um bocadinho. Isto não vai durar para sempre. O ir adormecer. Eles são é muito mal habituados. Eu adormeço sem abanicos e nunca me queixo.

Inocentemente, tento levar o livro para longe do campo de visão dela e pergunto “vamos fazer óó morzinha?” ela (e isto agora é mesmo a sério) abre aqueles olhões que mais pareciam holofotes, faz uma cara que mais parecia aquelas caras dos filmes de terror e começa a repetir com grande frequência a palavra não: “nãaaaaooooo, nãaaaaooooo, nãaaaaooooo, nãaaaaooooo”. Eu tive medo.

Lá se esqueceu ela do livro e foi buscar um brinquedo. Não vou explicar detalhadamente que brinquedo era porque eu precisava de meia vida para o conseguir fazer. E mesmo assim não seria fácil de visualizar. Mas posso afirmar credulamente que começaram a saltar corpos e asas de borboletas e florzinhas às quais ela se referia, com grande entusiamo, como goga (rosa) e gul (azul) por todo o lado. Mais gritos. Muito barulho. Já passava da meia noite. Eu estava a ficar nervosa. Eu sussurrava “por favor filhinha, olha o vizinho, vamos fazer ó-ó”. Eu só queria ir para o sofá, relaxar.

Antes, quando ela ainda não se mexia, isto era mais fácil de resolver. Eu levava-a para a nossa cama e olha, logo se via quem adormecia primeiro. Alguém haveria de ceder e normalmente era eu. Mas agora ela quer comer as minhas bolachas. E eu preciso daquele timing antes de adormecer, a ver (5 minutos de) um filme (e a comer bolachas). E ela não deixa. Ela quer sempre as minhas bolachas.

Bem, já que não os podes vencer, junta—te a eles. Achei melhor aproveitar a situação e brincar um bocado. Ela não ia dormir mesmo.

Seguiram—se lindos momentos a adivinhar onde estava o goga e onde estava o gul. Brincámos com as mãozinhas uma da outra. Rimos. Demos beijinhos.

Ela voltou a lembrar—se do livro. E eu acabei por levar com aquele “corpo de borboleta” que referi à pouco, diretamente nas trombas.

O pai abriu devagarinho a porta e eu adorava poder dizer que ela adormeceu serena nos braços da sua mãe. Mas não.

Quando se lembrou do livro também se lembrou que a cama podia ser trampolim.

E eu (deus me perdoe) disse “mor, a miúda ta maluca”.

Nova troca de turnos. Porque eu fui “fazer cócó” (código secreto que os pais utilizam entre si, que é como quem diz “não estou a aguentar mais, preciso de uns minutos sozinha/o barricado/a”).

Eu fiz tudo o que pude (me lembrar) de fazer. Só para escapar. Lavei os dentes, fiquei a olhar para o aquecedor que acabava de secar as calças para o (filho) mais velho vestir de manhã, com cara de quem pensava que se estivesse ali a olhar para ele com uma expressão (neurótica) ameaçadora, ele acabasse por secar as calças mais rápido. Oh meus deus, é só um aquecedor. Eu não estava bem. Apercebi-me que perdi (ou ganhei) pelo menos 10 minutos na tentativa de intimidar um aquecedor a óleo.

Quando voltei à realidade, lá estava ela. A dormir (tão querida) no colinho do papá. 

E eu fui comer as minhas bolachas.

E sim, comi bolachas depois de lavar os dentes.