Viagens no tempo

Hoje foi dia de ir passear à arrecadação. Como eu adorava poder dizer “hoje foi dia de ir passear ao sótão”. Mas não. Só tenho arrecadação mesmo. Uma arrecadação que mais parece um buraco negro.  Uma grande merda de arrecadação que por acaso é minúscula.
Enfim…
Antes do “passeio” é preciso encontrar a chave. Depois é preciso encontrar outra chave. Duas portas para entrar no maravilhoso mundo encantado da confusão, do pó e das tralhas (que não servem para nada mas é sempre melhor guardar… nunca se sabe qual será o dia que eu vou precisar de uma banheira de bebé ou do tapete (quadro? Nunca percebi bem) de arraiolos que me ofereceram de prenda de casamento). Já precisei de uma banheira de bebé. Mas foi mais fácil comprar uma nova. Por acaso há banheiras de bebé baraterrímas. Verdadeiras pechinchas. Se tudo na vida fosse acessível como uma banheira de bebé isto seria um mundo justo.
No meio das tralhas perco—me facilmente do meu objectivo (o que é que eu ia procurar mesmo?) é tão divertido abrir aquelas caixas de cartão, ficar com aquele sabor característico de pó na boca e sair de lá a parecer que meti base (daquela em pó) e encontrar aquelas porcarias todas que eu não via há mais de um século.
Encontrei um livro.
Um livro que a minha avó me deu.
Lembrei—me nostalgicamente do dia em que a minha avó me deu o tal livro.
Sorri.
Lembrei—me do dia em que fiz 11 anos (mais ou menos).
Abri o livro e por curiosidade fui ver a data da edição. 2007. Dois mil e sete.
Em 2007 (depois de muitas contas de cabeça) eu não tinha 11 anos. Nem 15. Eu tinha mais de 20.
Com mais de 20 anos, a minha avó ofereceu—me um livro que se chama ” O livro das Raparigas — Como ser a melhor em tudo “. Ok, eu já sabia que a família já tinha perdido todas as esperanças em mim. Eu NUNCA ia ser a melhor em tudo. Eu nem sequer sou hoje (10 ou 15 anos depois) a melhor em nada. Vá lá que tive dois filhos lindos.

Depois ter passado da fase da indignação, resolvi abrir o livro. Comecei a explorar o índice.

– Como ficar perfeita nas fotografias

– Como treinar o cão para dar a pata

– Como escrever um haiku (um quê?) merecedor de um prémio

– Como fazer uma rã dar um grande salto

– Como cultivar os próprios tomates (really?)

– Como fazer o maior balão de pastilha elástica

– Como fazer ratinhos de açúcar

– Como transformar água em limonada (se for com limões, essa sei)

– Como espalmar flores

– Como descobrir o teu ponto cego (só ainda ouvi falar no ponto “g”, mas não, não era isso que eu fui confirmar na página 68)

– Como cuidar de pintainhos

– Como tricotar com os dedos

– Como sobreviver a uma invasão de extraterrestres

– Como fazer uma cabeça de ovo

– Como fazer o próprio batom (wow!)

– Como fazer uma amiga levitar

(e há mais… muito mais… mais do que possam imaginar)

Estou em choque.

Isto é só um resumo do que se encontra no índice. E eu nada. Na-da. Desculpa lá a desilusão avó.

Como quem não quer a coisa, lá vim eu da arrecadação, com uma make-up de fazer inveja e umas teias de aranha só para finalizar o look, de livrinho debaixo do braço.

Nunca se sabe. Não para mim (que burro velho não aprende línguas), mas sei lá. Tenho uma filha bebé e daqui a uns anos quando ela vier com aquela cara de chica-esperta me perguntar algo tipo “como atravessar as Cataratas do Niagara numa corda bamba” (também lá está essa) eu não vou ter de fazer uma valente cara de ursa e responder “sei lá” ou pior ainda “não sei”.

Aqui estão todas as respostas que eu nunca pensei precisar. E nunca precisei. Mas isto sou só eu, que não sou perfeita.