Carga emocional

Sempre tive umas certas pancas. Quando era pequena casava (sim, de casamento) o lápis preto com o branco e o rosa com o azul… E arrumava—os assim aos casalinhos. Todos perfeitamente organizados por cores na caixinha de metal com aquele suporte branco com saliências para segurar harmoniosamente os lápis durante os seus relacionamentos. Sempre com as letras douradas para cima. Aquela forma hexagonal que permitia que eles rodassem sobre si emitindo aquele característico som (tr tr tr tr tr) deixava—me completamente fascinada.

A minha mãe comprava—me sempre os melhores lápis. Aquelas caixas mais bonitas. Lembro—me tão bem dessa sensação. Nesse momento eu sabia que a minha mãe acreditava e confiava em mim. Sentia—me mesmo uma mulher. Mesmo com 6 ou 7 anos. Eu percebia o que era ser uma mulher. A responsabilidade de carregar na mochila aquela lata de lápis que para mim era tão valiosa. O ter de provar que conseguia lidar com tão grande responsabilidade.

E estava certa. Agora é igual. Mas não são lápis que carrego. E a carga vem sempre em cima dos ombros. E não é material. É sobretudo emocional.